terça-feira, 9 de agosto de 2011

Parábola: A Formiga dos Olhos Coloridos

A FORMIGA DOS OLHOS COLORIDOS

              Era uma vez uma Formiga, chamada Formimiga, que nasceu em um pequeno lugar do país das formigas e que passou a morar em um formigueiro onde residiam as mais variadas formigas.

              Quando Formimiga nasceu, a Formiga Rainha, ou melhor, a Rainha de todos os Formigueiros e que tinha grande influência no Reino das Formigas, deu de presente de nascimento para ela “Olhos coloridos”, que tinham todas as cores que existiam na face da terra, fazendo ver de cada formiga ou de cada situação todas as cores ao mesmo tempo.  Como eram olhos mágicos, eles eram coloridos disfarçadamente: as cores só se podiam ver por dentro; quem os olhava só enxergava uma cor, a cor normal do olho de uma formiga (preto, castanho, vermelho etc).

              No início, ainda timidamente, Formimiga achava que todos enxergavam os seus olhos coloridos, mas aos poucos, percebeu que só ela própria, a Rainha e mais três guardiões (um do próprio formigueiro e dois de outros formigueiros vizinhos e que eram de confiança da Rainha) sabiam disso e, a Formimiga, às vezes, pensava: “pode ser que existam outras formigas que também tenham os olhos coloridos, mas como vou saber se o colorido é por dentro? Também não posso sair por aí perguntando!”.

              Mesmo na mais escura noite, ela conseguia enxergar todas as cores, coisa que outras formigas só viam sob a luz do sol.  E, em situações especiais, de vez em quando, a Formiga Rainha a convidada para fazer uma avaliação, ou seja, aplicar as cores dos seus olhos para que analisasse de maneira detalhada, não que ela tivesse sabedoria por ela mesma, mas porque lhe foi concedida; por isso, fazia isso como ninguém e sob as ordens da Rainha.  E assim, ela conseguia perceber o lado azul, o rosa, o verde, o vermelho, o amarelo, o preto, o matizado... (ou todas as cores ao mesmo tempo como nós enxergamos as cores do arco-íris de uma só vez.), como também, ela via quanto por cento de cada cor de uma determinada situação. 

              Muitas formigas, no entanto, só conseguiam ver o lado preto ou o lado marrom porque essa era a cor de seus olhos.  Como poderiam ver o mundo em todas as cores, se seus olhos só viam a lado escuro?

              Aos poucos, quando alguma formiga sentia o desejo de ver diferente, a Formiga Rainha ia concedendo uma nova cor, mas ia dando conforme o desejo de cada uma e sem que ela percebesse. Quem queria ver o azul era concedido o azul; quem o vermelho, quem o verde, o amarelo e assim por diante.  Algumas formigas, sem se darem conta, já estavam colorindo seu mundo e muitas coisas boas iam acontecendo no formigueiro.  

              Alguns percebiam que havia algum “mistério”, alguma coisa diferente em torno de Formimiga, mas não conseguiam perceber o que era; outros se perguntavam: “como ela sabe disso” ou “onde ela encontra tantas respostas?”. Todavia, a maioria a aceitava como ela era e se sentia muito bem com a sua presença. Alguns poucos, talvez 1, 2, 3, 4 ou 5% das formigas, em algum momento sentiam certa inveja dela: achavam-na querida demais por outras formigas.  Mas era seu jeito natural de ser, pois sempre foi assim desde que nasceu e é da mesma forma para todo o formigueiro, da formiga mais nova à mais velha. “Será que ela não tinha defeitos?”  Sim, ela não nasceu perfeita, tinha muitos defeitos no corpo, na mente e na sua alma e espírito de formiga, mas os defeitos dela nunca foram de fazer mal para alguém, nisso ela se treinava todos os dias para não maltratar ou prejudicar as outras formigas, além de contar com as ajudas dos seus guardiães e da Formiga Rainha para melhorar a cada dia. E, aos poucos, ela conseguia uma vitória na luta contra si mesma, como também seus olhos ajudavam a perceber seu lado interior. Algumas coisas se tornavam mais fáceis para ela por causa de seus olhos coloridos, tanto para perceber os sofrimentos como as alegrias ao seu redor. Ela tinha muita alegria interior e isso a ajudava a vencer, com maior rapidez, as inúmeras dificuldades que surgiam na sua vida do dia a dia ou por onde passava.

              As formigas, que um dia estiveram sob seus cuidados, sabiam que era seu jeito normal de agir. Algumas formigas até pensavam que ela não enxergava as coisas, ou que tinha medo de falar, mas ela sempre disse em particular e percebia que todos se esforçavam para vencer suas dificuldades. Algumas formigas costumavam dizer: “Nós obedecemos por amor, por confiança”, “como vamos tratar mal quem nos trata bem?” “Quem sabe conversar a gente sempre escuta”, “Na hora que ia fazer tal coisa me lembrei de você” e outros semelhantes. Em muitas formigas, foi percebida alguma mudança interior e exterior ou comportamental etc. Mas todos tinham um coração e mente de formiga e acabavam errando novamente, mas aos poucos iam diminuindo a quantidade de seus erros e a formiga dos olhos coloridos percebia cada mudança por mínima que fosse e os incentivava a ser cada vez melhores, assim como ela própria se treinava no seu crescimento interior.

              Quando alguma formiga mostrava o lado nublado da outra e só via esse lado, Formimiga fazia questão de mostrar o lado vermelho, ou o verde, ou o róseo, ou o azul e assim por diante.  Algumas formigas se incomodavam com isso, mas, não é que Formimiga não enxergasse o lado nublado também, tanto que, se a observassem melhor, não discordava do que fora dito se realmente via esse lado, e sim mostrava mais um lado da referida formiga para que percebessem que, se esta fosse bem orientada, haveria possibilidades de crescimento, de melhoramento nesse ou em outro formigueiro.  Claro que se o nublado fosse em torno de 90% ou na sua grande maioria, o outro lado que ela mostrava era em torno de 10% ou equivalente, mas se o nublado era em torno de 10% e as outras formigas falavam como se fossem 90%, ela fazia a defesa justa, porque lhe foi dado a capacidade de justiça, ou seja, a visão de todas as cores.  E  mesmo em alguns casos de muito pretume, tendo aprendido com a Formiga Rainha, ela aplicava os seus olhos especiais na maior concentração que ela conseguia fazer, na esperança de ver algum ponto colorido e conseguir pequenas mudanças até reverter o caso ou melhorar alguma coisa assim como os artistas fazem obras de arte com o pano-de-fundo preto.

              Quando Formimiga falava de outras cores, algumas formigas achavam que era só por falar, que era invenção ou blá blá blá de formiga e não por conhecimento de causa.  Às vezes, ela tentava explicar ou defender porque via além do que era dito e nem todas entendiam.  Algumas vezes ela pensava: “o que fazer com diferentes cores se outras formigas não enxergam as diferentes cores?”.  Na hora, acabava sofrendo as conseqüências disso, mas não podia deixar de fazer, pois fazia parte de sua missão; e seguia seu caminho com serenidade, acreditando na paz, no amor, na justiça e verdade e desejando que todas tivessem os olhos coloridos.

              Chegou o dia em que a formiga dos olhos coloridos caiu doente de morte, pois cada uma tinha sua hora de morrer, ou melhor, de transformar-se e seus olhos internos e coloridos foram começando a se revelar: a cada dia que se aproximava de sua morte ia aparecendo uma nova cor nos seus olhos externos até que, no dia de sua morte, ficaram plenamente coloridos.  A partir daí, todas entenderam porque ela conseguia ver outras cores quando tudo parecia sem cor ou nublado. Diante do fato, muitas recorreram à Formiga Rainha para lhes dar outras cores para os seus olhos e assim poderem ver o mundo e as realidades com todas as cores.

              Que todos nós, do mundo dos humanos, assim como fizeram as formigas recorrendo à Formiga Rainha, possamos, todos os dias, recorrer ao nosso Deus, pedindo que nos conceda “olhos coloridos” para que possamos ver a realidade e as pessoas tais como são e não apenas um lado da vida e que nos ajudemos, uns aos outros, a construir um mundo mais justo, menos competitivo, um mundo onde cada um dá de acordo com o que recebeu e com o que tem, isto é, de acordo com suas capacidades e seus dons no ser e no fazer, um mundo mais fraterno, mais cheio de amor desde agora e para sempre.

(Autoria: Ir Elenilza – SMI)
                                                                                                                            Em Março 2006.      

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